O economista Michael Pettis é um internacionalmente reconhecido especialista na economia chinesa. Na newsletter de 17-08-2026 fizemos uma pequena resenha do seu famoso livro intitulado “Trade Wars Are Class Wars: How Rising Inequality Distorts the Global Economy and Threatens International Peace” (Guerras de Comércio São Guerras de Classes: Como Crescente Desigualdade Distorce a Economia Global e Ameaça a Paz Internacional), publicado em 2020 em coautoria com Matthew C. Klein.
Neste livro Pettis e Klein argumentam que desequilíbrios comerciais globais persistentes são, fundamentalmente, consequência da desigualdade de renda doméstica e da distribuição distorcida de renda dentro dos países. Em outras palavras, as “guerras comerciais” de hoje são, na verdade, a manifestação internacional de “guerras de classe”.
No Insight de Finanças Digitais - IFD 09 apontamos que Pettis, estendendo o argumento de seu livro, voltou a afirmar que apesar do câmbio não ser a causa fundamental do superávit chinês, ele acredita que a valorização do yuan é um dos mecanismos mais diretos para corrigir o desequilíbrio interno da China.
Em artigo recente, intitulado “The Plaza Accord and Its Relevance for China” (O Acordo Plaza e Sua Relevância para a China), de 25-09-2026, Pettis cita que em reuniões recentes na Europa e nos EUA tem havido o ressurgimento de discussões sobre se a China deveria ou não apreciar sua moeda em resposta aos seus enormes excedentes comerciais.
Como parte desta discussão, analistas frequentemente apontam para as similaridades entre a China e o Japão durante os preparativos para o Acordo Plaza de setembro de 1985. Em resposta a essas discussões, no entanto, Pequim tem insistido que a China nunca irá tolerar um cenário onde a China desempenha o papel uma vez desempenhado pelo Japão.
Sendo assim, o artigo acima citado de Michael Pettis é fundamentalmente uma reinterpretação do Acordo Plaza e, através dele, uma advertência sobre como a China deveria lidar com seu enorme excedente externo. Seu argumento central é que o Acordo Plaza não causou as “décadas perdidas do Japão”; mas sim, as respostas de políticas de ajuste do Japão causaram!
Desta forma, e devido á importância da China nas atuais questões dos desequilíbrios do comércio global, bem como das finanças internacionais, esta newsletter decidiu explicitar, em duas partes, o que de fato foi o Acordo Plaza, e porque a China não deveria temer aquela iniciativa. Logo, vamos à primeira parte do argumento do Pettis.
1. A tese central de Pettis
A história convencional é:
Pressão dos EUA → Acordo Plaza → apreciação do iene → colapso das exportações japonesas → perda de competitividade → bolha de ativos → décadas perdidas.
Pettis argumenta que essa cadeia causal está errada.
Sua alternativa é:
Grande desequilíbrio externo → necessidade de reequilíbrio doméstico → apreciação cambial ajuda a iniciar o ajuste → formuladores de política resistem aos custos de curto prazo → afrouxamento monetário excessivo e crédito abundante → bolha de investimento/ativos → excesso de capital → estagnação prolongada.
Em outras palavras, o Acordo Plaza expôs um desequilíbrio japonês subjacente; ele não criou o problema fundamental.
2. O que realmente estava errado com o Japão?
O Japão havia desenvolvido um modelo de crescimento baseado em: consumo doméstico fraco; alta poupança das famílias; salários domésticos reprimidos; investimento muito elevado; fortes exportações industriais; e grande superávit em conta corrente.
Em 1985, o superávit em conta corrente do Japão era cerca de 3,6% do PNB. A Comissão Maekawa concluiu que o Japão precisava de uma transformação estrutural: de uma economia impulsionada pela demanda externa para uma impulsionada pela demanda doméstica.
Isso é crucial para a interpretação de Pettis.
O problema não era simplesmente que o iene estava “barato demais”.
O problema mais profundo era que renda demais estava indo para produtores, investimento e exportações — e renda de menos para famílias e consumo.
3. Por que Pettis acha que a apreciação do iene poderia ajudar?
Um iene mais forte: torna importações mais baratas; aumenta o poder de compra real das famílias japonesas; reduz a vantagem competitiva dos exportadores; desloca recursos para longe dos setores dependentes de demanda externa; incentiva o consumo; reduz a dependência de investimento e exportações.
Assim, o ajuste cambial deveria ser parte de uma redistribuição muito mais ampla de renda e demanda. Este é talvez o ponto conceitual mais importante do artigo:
Ajuste cambial é, fundamentalmente, um mecanismo de distribuição de renda.
A apreciação transfere poder de compra para famílias/importadores e o retira de exportadores. Por isso Pettis não vê a apreciação cambial apenas como um choque de competitividade.
4. O verdadeiro erro do Japão: lutar contra o ajuste
Aqui o argumento de Pettis fica especialmente interessante. Após a apreciação do iene, o crescimento japonês desacelerou. As exportações caíram cerca de 6% em 1986, enquanto o crescimento do PIB caiu de cerca de 5% em 1985 para 2,5% em 1986.
Em vez de aceitar o ajuste de curto prazo, os formuladores de política afrouxaram agressivamente a política monetária. A taxa de desconto do Banco do Japão foi de:
5% → 2,5% entre janeiro de 1986 e fevereiro de 1987.
O crédito se expandiu dramaticamente. Isso minou a redistribuição de renda que a apreciação do iene deveria gerar.
O mecanismo de Pettis é:
Apreciação do iene → maior poder de compra das famílias → potencial aumento do consumo → menor dependência das exportações
mas então:
repressão financeira + crédito barato → menor renda de juros das famílias → mais recursos para empresas/governo → mais endividamento → mais investimento.
O Japão tentou obter reequilíbrio sem aceitar os custos do reequilíbrio.
5. E isso criou a bolha
O crédito barato fluiu para: imóveis; infraestrutura; manufatura; tecnologia; e ativos financeiros.
Os preços dos ativos subiram.
Valores de colateral mais altos permitiram mais empréstimos.
Mais empréstimos geraram mais investimento.
Mais investimento gerou preços de ativos ainda mais altos.
Um ciclo de retroalimentação emergiu:
dinheiro fácil → crédito → preços de ativos → colateral → mais crédito → mais investimento.
Para Pettis, a bolha japonesa não foi consequência direta do Acordo Plaza, mas da tentativa de neutralizar o ajuste que o Acordo Plaza havia iniciado.
6. O ponto realmente importante: excesso de capital
Aqui Pettis vai além da explicação padrão da “crise bancária japonesa”.
O problema após 1990 não foi simplesmente:
“o Japão tinha demanda insuficiente.”
Foi também:
o Japão acumulou capital demais em relação às oportunidades de investimento lucrativas.
O investimento havia se tornado excessivo.
A formação bruta de capital fixo subiu de cerca de 30% do PIB antes do Plaza para 34–35% em 1990. Depois caiu substancialmente.
Quando a bolha estourou:
preços de ativos ↓ → valores de colateral ↓ → perdas bancárias ↑ → crédito ↓ → investimento ↓
Mas o problema mais profundo era o enorme estoque de capital mal alocado/excessivo.
Portanto, simplesmente estimular a demanda não resolveria o problema.
Pettis faz uma distinção importante:
Uma queda no investimento pode ser parte da solução, não do problema.
Se uma economia investiu demais, estimular mais investimento pode piorar o ajuste.
Na próxima newsletter veremos por que a China é o verdadeiro assunto do artigo do Pettis.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a economia chinesa, não hesite em nos contatar!
