No dia 11 de outubro do corrente ano o economista Adam Tooze reproduziu em seu blog no Substack um trecho de artigo do Financial Times que nos intrigou bastante. O texto descrevia como o Banco Central da Índia (RBI) está intensificando esforços para conter a queda da rupia (moeda da Índia, ver Figura 1 à frente – eixo y está invertido), que se tornou uma das moedas de pior desempenho na Ásia. A desvalorização se agravou após o aumento dos preços de energia provocado pela guerra EUA–Israel contra o Irã, já que a Índia depende de importações para mais de 90% de seu petróleo.
Figura 1 – Banco Central da Índia tenta conter queda da rupia

Fonte: Financial Times
O que nos chamou a atenção foi o seguinte: temos escrito e falado muito sobre a China, mas quase nada a respeito de outra importante economia da Ásia, e com relevantes impactos na economia global: a economia da Índia.
Sendo assim, procuramos textos recentes sobre a estrutura e a dinâmica da economia da Índia, bem como analisamos como Adam Tooze tem se posicionado em relação àquela economia. E foi assim que chegamos a dois textos do economista Craig Tindale sobre a Índia, e decidimos resenhar tais textos complementando com a leitura de Adam Tooze. Logo, dividiremos a resenha em duas newsletters para proporcionar ao leitor uma visão mais geral sobre a economia indiana.
Os dois ensaios do Tindale (um do dia 11-10-2026 e outro do dia 12-10-2026) apresentam um único argumento conectado: a vulnerabilidade industrial e estratégica da Índia não é apenas uma questão de falta de dinheiro ou tecnologia; ela reflete fragilidades tanto em suas cadeias de suprimentos materiais quanto em seu sistema financeiro.
1. A Armadilha Material Existencial da Índia
Tindale argumenta que as ambições da Índia de se tornar uma potência industrial e militar são minadas por sua dependência da China para insumos industriais críticos. Isso inclui ímãs de terras raras, materiais para baterias, magnésio, gálio, antimônio e outros materiais especializados usados em veículos elétricos, eletrônicos, produtos farmacêuticos e sistemas de defesa.
Seu ponto central é que a Índia pode possuir reservas substanciais de moeda estrangeira e, ainda assim, ser incapaz de garantir materiais essenciais quando um rival geopolítico restringe exportações. A interrupção na produção de scooters elétricos da Bajaj Auto após os controles chineses de exportação de terras raras em 2025 ilustra essa vulnerabilidade.
Tindale, portanto, distingue entre dois tipos de força nacional:
- Capacidade financeira: reservas, dinheiro e poder de compra.
- Capacidade material: produção doméstica, processamento mineral, infraestrutura industrial e cadeias de suprimentos seguras.
Sua conclusão é que riqueza financeira não garante autonomia estratégica quando um país carece das capacidades industriais necessárias para produzir bens essenciais.
2. A Armadilha Material Existencial da Índia, Parte Dois: Banking Swadeshi
O segundo ensaio identifica o que Tindale considera ser a causa subjacente: o sistema bancário e monetário da Índia direciona recursos demais para dívida pública, habitação e consumo, e recursos de menos para investimento industrial.
Ele argumenta que vários elementos institucionais reforçam esse padrão:
- Altos custos reais de empréstimo tornam o investimento em fábricas caro, especialmente para pequenas e médias empresas.
- Requisitos de capital bancário favorecem títulos públicos e hipotecas em vez de empréstimos para empresas industriais.
- O endividamento do governo compete com negócios produtivos pelo financiamento bancário.
- Subsídios industriais, como o esquema PLI (Production Linked Incentive), não conseguem compensar o que ele vê como uma escassez estrutural de crédito industrial acessível e de longo prazo.
Tindale contrasta a abordagem da Índia com o financiamento industrial mais barato da China e com o uso de subsídios industriais e intervenção financeira estratégica nos Estados Unidos. Sua solução proposta é uma forma de Banking Swadeshi: redirecionar parte dos recursos financeiros nacionais para bancos de desenvolvimento, crédito industrial de longo prazo, processamento mineral doméstico e manufatura estratégica.
Como os dois textos se conectam
POST 1 — O SINTOMA
Uma dependência material: A Índia tem recursos financeiros, mas não controla insumos críticos. A posição da China em cadeias de suprimentos essenciais cria alavancagem industrial e geopolítica.
POST 2 — A CAUSA PROPOSTA
Um mau direcionamento financeiro: Tindale argumenta que regras monetárias e bancárias desencorajam o investimento necessário para desenvolver capacidade industrial doméstica.
A SOLUÇÃO PROPOSTA
Reconstruir capacidades produtivas: Reformar o financiamento industrial, expandir bancos de desenvolvimento e investir em materiais estratégicos e capacidades de processamento.
Leitura geral
A contribuição mais interessante é a distinção entre força financeira e soberania produtiva. Ela desafia a suposição de que acesso a moeda estrangeira e mercados internacionais necessariamente se traduz em segurança econômica.
No entanto, a afirmação mais forte de Tindale — de que a política monetária e a regulação bancária são as principais causas da fraqueza industrial da Índia — é uma hipótese que exige mais escrutínio. Custos de empréstimo e regras de alocação de crédito podem importar bastante, mas produtividade, infraestrutura, qualificação da mão de obra, política comercial, escala de mercado e a economia da produção doméstica também são fatores relevantes. Tampouco a dependência de importações implica automaticamente vulnerabilidade estratégica se os fornecedores forem diversificados e houver substitutos disponíveis.
Assim, os dois ensaios devem ser lidos como uma tese contundente de política industrial, e não como prova conclusiva de que o arcabouço monetário da Índia explica sua desindustrialização.
Na próxima newsletter veremos como Adam Tooze examina como a questão da Índia revela uma vulnerabilidade econômica mais profunda!
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a economia da Índia, não hesite em nos contatar!
