Foi publicado no mês de abril do corrente ano, na revista Economy & Society, o artigo “The state of the state” (O estado do estado), de William Davies, Andrew Barry, Ilias Alami, Samantha Ashenden, e Linsey McGoey. O trabalho representa uma reflexão coletiva fundamental de membros do conselho editorial da revista sobre a transformação do papel do Estado na década de 2020. O texto se afasta de diagnósticos simplistas para explorar a heterogeneidade das novas formas de poder estatal em um cenário que um dos autores denomina de "policrise".

O artigo argumenta que os eventos da década de 2020 (pandemia de COVID-19, invasão da Ucrânia, ascensão da China e crise climática) forçaram um retorno do Estado ao centro das atenções teóricas e políticas. Superando, como resumem os autores, a era do neoliberalismo "puro", surge um novo paradigma onde segurança, soberania e intervenção econômica se fundem.

A tese central do artigo é a de que não existe uma tendência única, mas sim efeitos de Estado heterogêneos que ainda carecem de uma teorização completa. O texto é organizado em contribuições de cinco autores principais, cada um trazendo uma lente teórica distinta:

Autor(a)Foco PrincipalConceito Chave
William Davies Crise do Neoliberalismo "Segurança" como racionalidade governamental.
Samantha Ashenden Teoria da Crise A "policrise" e a crise de fertilidade/população.
Andrew Barry Materialismo e Química O "regime químico de vida" e minerais críticos.
Ilias Alami Marxismo Político Mediação estatal da acumulação de capital planetária.
Linsey McGoey História e Ignorância Estratégica Mitos do livre mercado e o papel histórico da intervenção.

Os temas transversais do artigo são:

  • Segurança e Geopolítica: A economia não é mais vista apenas através da eficiência, mas da segurança nacional ("securonomics", "friend-shoring").
  • A "Policrise": O Estado opera em um ambiente de crises simultâneas (financeira, climática, biopolítica) que se alimentam mutuamente.
  • Autoritarismo e Populismo: A ascensão de regimes nacionalistas iliberais que utilizam o Estado para agendas culturais e identitárias ("anti-woke").
  • Desafio à Burocracia Liberal: O surgimento de ideologias anarco-capitalistas e libertárias (ex: DOGE nos EUA) que buscam desmantelar a capacidade burocrática tradicional em favor do poder privado.

Sem avançarmos em uma análise profunda, o trabalho é uma leitura obrigatória para quem busca compreender as placas tectônicas da política global contemporânea. Ele não oferece respostas fáceis, mas fornece as ferramentas conceituais necessárias para mapear um Estado que é, ao mesmo tempo, mais intervencionista, mais inseguro e mais contestado do que em qualquer momento desde o fim da Guerra Fria.

O trabalho conclui que o Estado hoje não é apenas um árbitro do mercado, mas um gestor de emergências permanentes, onde a "conveniência" (mencionada em outros debates) dá lugar à "sobrevivência" e à "segurança" como justificativas supremas da ação governamental.

Aproveitando a publicação deste artigo, fizemos o seguinte exercício: as visões sobre o papel do Estado (expressas no artigo acima resenhado) são ausentes de reflexões sobre os aspectos complexos da Economia Informacional, ou é possível relacioná-las sob o guarda-chuva da Teoria da Economia Informacional - TEI?

O artigo, como constatamos, não é "ausente" de elementos da Economia Informacional — mas os trata de forma implícita e incompleta. Com algum trabalho, no entanto, seus argumentos podem ser integrados sistematicamente à nossa TEI - e fazê-lo, na verdade, esclarece ambos.

Sendo assim, o que o artigo captura que é compatível com a TEI? A força central do artigo é que ele rejeita binários simplistas (estado vs. mercado) e enfatiza a heterogeneidade, a epistemologia e a materialidade do poder. Isso se alinha fortemente com a TEI em pelo menos quatro dimensões:

  1. Conhecimento e infraestruturas epistêmicas

    O artigo destaca explicitamente:

    • "arranjos epistemológicos tecnologicamente mediados"
    • novas formas de "perceber, caracterizar, classificar e conhecer o mundo"

    Isso é diretamente compatível com a TEI, onde:

    • informação = substrato econômico primário
    • instituições = arquiteturas de processamento de informação

    Interpretação sob a TEI: O Estado está evoluindo para um meta-coordenador de sistemas epistêmicos (IA, infraestruturas de dados, vigilância, modelagem).

  2. Estado além do território → governança distribuída

    O texto se baseia em tradições foucaultianas (do filósofo francês Paul-Michel Foucault):

    • o poder não está apenas no estado
    • ele existe em "centros de cálculo, conhecimento, controle e padronização"

    Esta é quase uma premissa da TEI.

    Tradução da TEI:

    • O Estado não é mais um ator delimitado
    • Ele é um nó dentro de uma rede informacional distribuída
  3. Segurança como princípio organizador

    O artigo sugere uma mudança:

    • de "eficiência de mercado" para segurança, resiliência, preparação

    Em termos da TEI:

    • esta é uma mudança da eficiência alocativa para a gestão de risco informacional

    Insight chave: Segurança = controle sobre a incerteza nos fluxos de informação

  4. Fusão material-informacional (estado químico)

    A seção sobre o "estado químico" é crucial:

    • foco em minerais, energia, meio ambiente, cadeias de suprimentos
    • vincula recursos físicos à estratégia geopolítica

    Sob a TEI:

    • estes não são apenas ativos físicos
    • são gargalos informacionais incorporados em sistemas materiais

    Exemplo:

    • terras raras → hardware de IA → processamento de dados → poder informacional

E, finalmente, em que o artigo é omisso? Resumidamente:

  1. Ausência de um conceito explícito de informação como unidade econômica central

    O artigo discute: tecnologia, IA, e sistemas de conhecimento. Mas nunca formaliza a informação como o fator primário de produção. Isso leva a uma limitação: a análise permanece descritiva e plural, e falta uma ontologia econômica unificadora.

  2. Ausência de uma teoria do valor informacional

    O texto menciona “assetização” (transformação em ativos), financeirização, e práticas de valoração. Mas não responde: o que determina o valor em uma economia baseada em dados?

    Contribuição da TEI:

    • valor = função de: densidade de informação, previsibilidade, e controle sobre a incerteza
  3. Papel subdesenvolvido das infraestruturas de dados

    Apesar de mencionar IA e tecnologia digital, o artigo não explora totalmente: governança de dados, infraestrutura pública digital, e coordenação algorítmica. Esta é uma lacuna importante.

    Na TEI:

    • a fronteira do Estado = controle/design de infraestruturas informacionais: sistemas de identidade, canais de pagamento (payment rails), trocas de dados, e governança de IA
  4. Ausência de um modelo formal de transformação do Estado

    O artigo evita explicitamente a síntese: "devemos evitar o impulso de reuni-los sob um único guarda-chuva conceitual". Isso é intelectualmente cauteloso — mas analiticamente limitante. A TEI fornece exatamente esse guarda-chuva.

Finalmente, e como integrar o artigo à TEI? Aqui está um mapeamento claro:

Conceito do ArtigoReinterpretação da TEI
Crise / policrise instabilidade informacional em sistemas interconectados
Estado de segurança governança da incerteza e da entropia
Estado químico controle dos substratos materiais da informação
Fusão estado-capital coprodução de ativos informacionais
Sistemas epistemológicos infraestruturas de dados e modelos de IA

Em síntese, o artigo resenhado descreve os sintomas de um Estado em transformação; a TEI explica a lógica informacional subjacente a essa transformação.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre o Estado na TEI, não hesite em nos contatar!

PS: A confecção desta letter contou com o apoio do ChatGPT