Na semana que passou introduzimos a questão do sinal e do ruído como um tema importante nos processos decisórios. Para tanto, recuperamos o entendimento do economista Nate Silver de predições aparentemente precisas, mas nem um pouco acuradas, e aquele entendimento do Prof. Daniel Kahneman (e coautores) sobre duas categorias de erros humanos: bias (viés) e noise – systematic deviation and random scatter (ruído – desvio sistemático e dispersão aleatória).
Ao mesmo tempo, argumentamos ao lado destes erros humanos há uma questão que só agora vem ganhando atenção entre os pesquisadores: o impacto intertemporal do ruído. Mas o que isso tem a ver com nossos processos decisórios?
Recente trabalho publicado na revista Nature Communications, intitulado “Early versus late noise differentially enhances or degrades contexto-dependent choice” (Ruído precoce versus tardio diferentemente aumenta ou degrada dependentes de contexto), aprofunda a questão intertemporal do ruído. Segundo seus autores o ruído é um problema fundamental para o processamento de informação em redes neurais. Em processos decisórios, o ruído é pensado como causador de erros estocásticos nas escolhas.
No entanto, pouco é conhecido sobre como ruído emergindo de diferentes fontes pode contribuir diferentemente para valorar comportamentos de codificação e de escolha. Aqui os autores examinam como ruído emergindo precoce versus tardio em processos de decisão impacta diferentemente comportamentos de escolha dependentes de contexto.
Os autores observaram em simulações de modelos que sob ruído precoce, informação contextual aumenta a acurácia das escolhas, enquanto sob ruído tardio, o contexto degrada a acurácia das escolhas. Além disso, eles verificaram essas predições opostas em comportamento experimental de escolha humana. Manipular ruído precoce e tardio – ao induzir incerteza em opções de valor e controlando pressão de tempo – produz dissociáveis efeitos de contexto positivos e negativos.
Tais resultados reconciliam resultados experimentais controversos na literatura, sugerindo um mecanismo unificado para escolhas dependentes de contexto. Mais amplamente, estes achados acentuam como diferentes fontes de ruído podem interagir com computações neurais para modular comportamento diferencialmente.
Mas qual é o racional para tais achados? A teoria de decisão racional clássica requer que as escolhas e a acurácia das escolhas devam ser independentes de contexto. Por exemplo, a preferência por uma maçã sobre uma laranja não deve ser influenciada pela presença de uma banana – uma propriedade conhecida como independence of irrelevant alternatives – IAA (independência de alternativas irrelevantes).
Contudo, uma riqueza de evidência empírica coletada em espécies variando de humanos a insetos tem mostrado que tomadas de decisões no mundo real são inerentemente dependentes de contexto. A presença de uma opção adicional, mesmo quando esta opção nunca seja escolhida, irá mudar o comportamento da escolha melhor entre outras opções no conjunto de escolhas.
Escolhas dependentes de contexto são amplamente documentadas em tarefas de escolhas envolvendo múltiplos atributos, onde as opções diferem em múltiplas dimensões de características. Além disso, recentes achados mostram que preferências dependentes de contexto podem emergir mesmo quando opções de valor são uni-dimensionais. Tais efeitos guiados por valor sugerem que processamento contextual é uma característica geral de tomada de decisão biológica, mas mecanismos neurais específicos por trás da escolha dependente de contexto permanece pouco clara.
Estes novos achados chegam em boa hora para corroborar algo que vimos defendendo há algum tempo, como argumentamos em nossa newsletter Nem liberalismo nem desenvolvimentismo: uma visão informacionista do avanço (ou progresso) socioeconômico (Parte 4), publicada em 02/12/2024. Ali apontávamos que, em contraste com a escola neoclássica econômica (que afirma que o valor de um bem é determinado pela importância que um indivíduo coloca no bem para atingir seus fins desejados, ou seja, a noção do “valor extrínseco”), acreditamos que o valor de algo, de fato, muda dependente do contexto, e o valor deve algumas vezes ser completamente definido pelo contexto. Logo, a incorporação do contexto como um fator definidor do valor nos leva para um novo conceito que é o de “valor intrínseco”.
Sendo assim, o valor em suas relações com outras coisas, e, daí, sua dependência destas outras coisas é o que se chama contexto. O contexto pode, de fato, ter algum valor e este pode adicionar ou subtrair valor para qualquer item individual dentro daquele contexto.
Nasce assim, como apontamos na nossa newsletter supracitada, a ideia de “valor em conexões”. O valor está ou se encontra em como coisas estão contextualizadas, culturalmente, socialmente, ambientalmente e tecnologicamente. E isto se dá porque a “rede”, a partir da qual estamos obtendo valor, está crescendo. Ou seja, o valor das coisas, dos bens, dos serviços, no mundo contemporâneo não se dá mais exclusivamente pelas preferências dos indivíduos, como pregado pelos economistas neoclássicos, mas também pelas conexões que os bens e os serviços desejados mantêm com outros bens e serviços. Esta é a noção de como o valor emana no mundo complexo e globalizado dos dias atuais: é a “value network” (a rede de valor).
Em resumo, além de termos que ponderar sobre nossos erros em tomadas de decisões, temos que considerar como os contextos para tais decisões impactam nossos comportamentos, o que, em última instância pode aumentar ou degradar a acurácia de nossas decisões.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre ruído precoce versus tardio, não hesite em nos contatar!
