Eis aqui uma questão que atualmente está perpassando várias discussões no Brasil contemporâneo: damos preferência às relações com o dólar ou aquelas com o yuan? O que vamos apontar com esta série de newsletters, que hoje se inicia, é que esta não é a questão que deveríamos nos preocupar como brasileiros.
E para defender este argumento vamos inicialmente nos valer de um importante debate econômico internacional que está chamando a atenção dos especialistas em Economia Internacional: afinal, o yuan (a moeda chinesa, ou Renmimbi- RMB) é um sintoma ou a causa dos atuais desequilíbrios globais?
Neste sentido, vamos assumir que, do ponto de vista estratégico, o Brasil se torna particularmente interessante se pararmos de tratar o yuan apenas como uma variável cambial e passarmos a vê-lo como parte de uma arquitetura em transformação do ajuste global.
Para isso, é importante adotarmos a seguinte distinção fundamental:
“O yuan pode ser um sintoma do desequilíbrio externo da China no nível macroeconômico, mas está se tornando cada vez mais um instrumento por meio do qual a China administra — e potencialmente remodela — o sistema monetário internacional”.
Essa distinção cria uma posição estratégica muito interessante para o Brasil.
1. Qual é o argumento convencional?
A interpretação tradicional é essencialmente a seguinte. A China poupa demais → a demanda doméstica é insuficiente → a China registra superávits em conta corrente → o RMB é relativamente fraco → as exportações são fortes → o resto do mundo absorve o excesso de poupança da China.
Há considerável apoio para essa interpretação. O FMI estima que o superávit em conta corrente da China atingiu cerca de 3,3% do PIB em 2025, após demanda doméstica fraca e inflação relativamente baixa produzirem uma depreciação real da taxa de câmbio.
E, globalmente, o FMI afirma que os saldos excessivos em conta corrente responderam por cerca de dois terços da ampliação dos desequilíbrios globais em 2024, com China, EUA e zona do euro como principais motores.
Nesse quadro:
Subvalorização do RMB → superávit chinês → desequilíbrio global.
Mas este panorama é incompleto.
2. Uma interpretação mais interessante: o RMB está se tornando um instrumento
A China está gradualmente fazendo algo diferente: superávit comercial → acumulação de poder financeiro → internacionalização do RMB → criação de infraestrutura de pagamento/liquidação em RMB → maior autonomia em relação ao sistema do dólar.
Isso é muito mais consequente.
O FMI relata que, em 2025T3, o RMB ainda representava menos de 3% da liquidação do comércio global e cerca de 2% das reservas globais — mas a infraestrutura que sustenta seu uso internacional se expandiu substancialmente, incluindo o CIPS - Cross-border Interbank Payment System (Sistema de Pagamento Interbancário Transfronteiriço), bancos de compensação offshore, acordos de swap e mecanismos de acesso para investidores estrangeiros.
E isso agora é explicitamente parte da política chinesa. O plano quinquenal do PBOC - People’s Bank of China (banco central chinês) para 2026 prevê expandir o uso internacional do yuan no comércio e investimento, mantendo a estabilidade cambial.
3. O Brasil ocupa uma posição peculiar nesse sistema
O Brasil não é simplesmente uma “vítima” dos desequilíbrios chineses. Ele é simultaneamente: fornecedor + credor + exportador de commodities + usuário de RMB + usuário de dólar + membro dos BRICS.
Consideremos a assimetria. A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2024, a China representou 28% das exportações brasileiras e 24% das importações. Mas aproximadamente 80% das exportações brasileiras para a China eram produtos extrativos ou agrícolas, especialmente soja, minério de ferro e petróleo. E, em 2025, a China comprou cerca de US$ 55,3 bilhões em produtos agrícolas brasileiros, 32,7% das exportações agrícolas do Brasil.
Portanto, o Brasil ocupa uma posição algo como: fornecedor estratégico de recursos essenciais para a China. Isso é muito diferente da posição da Alemanha ou dos Estados Unidos.
4. A pergunta realmente interessante para o Brasil não é “dólar ou yuan?”
A questão estratégica mais adequada que deveria ser considerada seria: como o Brasil pode transformar sua posição entre os sistemas dólar e yuan em opcionalidade financeira e estratégica?
Isso é muito mais interessante. O Brasil não precisa escolher: USD ou RMB. Ele pode buscar: USD + RMB + BRL + ouro + infraestrutura multilateral de liquidação.
Isso é consistente com o que o Brasil historicamente fez com suas reservas: o BCB enfatiza segurança, liquidez e rentabilidade na gestão das reservas, e não preferências ideológicas de moeda.
E o Brasil já tem experiência exatamente com essa lógica. O Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) do BCB permite que Brasil e parceiros do Mercosul liquidem transações em suas próprias moedas sem uma moeda de reserva intermediária como o dólar.
Portanto, o Brasil não precisa inventar a arquitetura conceitual. No entanto, como evitar que o Brasil se torne dependente do yuan? A resposta nós deixaremos para a Parte 2 desta newsletter!
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre moedas internacionais no Brasil de hoje, não hesite em nos contatar!
