Na newsletter de Dollar or Yuan: Is this the question? (Dólar ou Yuan: É esta a questão?) (Parte 1), publicada em iniciamos uma discussão sobre se a questão contemporânea crucial para o Brasil seria dar preferências às relações com o dólar ou àquelas com o yuan. Argumentamos, então, que do ponto de vista estratégico, o Brasil se tornaria particularmente interessante se parássemos de tratar o yuan apenas como uma variável cambial, e passássemos a vê-lo como parte de uma arquitetura em transformação do ajuste global.
Sendo assim, para defender este argumento nos valemos de um importante debate econômico internacional que está chamando a atenção dos especialistas em Economia Internacional: afinal, o yuan (a moeda chinesa, ou Renmimbi- RMB) é um sintoma ou a causa dos atuais desequilíbrios globais?
Depois de apresentarmos as duas visões principais deste debate, e apontarmos como o Brasil se situa neste contexto (buscando uma estratégia combinada das duas moedas), deixamos no ar a seguinte pergunta: como evitar que o Brasil se torne dependente do yuan?
5. Mas há uma assimetria importante: o Brasil deve evitar se tornar “dependente do yuan”
Dando continuidade à itemização da newsletter de 24-8-2026, podemos afirmar que a relação Brasil–China tem duas dimensões muito diferentes: a) Dependência comercial: a China é extraordinariamente importante para as exportações brasileiras; b) Dependência financeira: isso é potencialmente muito mais consequente.
Se o Brasil progride de:
exportações brasileiras → dólares → reservas
para:
exportações brasileiras → RMB → ativos em RMB,
então o Brasil começa a participar do ecossistema monetário da China.
Isso pode reduzir a dependência do dólar, mas potencialmente cria dependência do yuan. E esta não é necessariamente melhor.
O sistema atual do RMB tem uma limitação fundamental: a China quer internacionalização sem abrir mão completamente dos controles de capital. A avaliação do Financial Times hoje é precisamente que a parte mais difícil da internacionalização do RMB é fazer estrangeiros manterem voluntariamente grandes quantidades de ativos em RMB; a liquidação comercial é muito mais fácil do que construir uma moeda de investimento genuinamente global.
Essa distinção é crucial para o Brasil.
6. Portanto, a posição estratégica do Brasil poderia ser a “intermediação monetária”
Aqui nossa perspectiva da Teoria da Economia Informacional (TEI) se torna particularmente interessante. Ao invés de ver o Brasil como escolhendo uma moeda, podemos pensar no Brasil como ocupando uma posição de rede.
Algo como:
O Brasil poderia se tornar um nó de ponte entre redes monetárias. Isso é potencialmente mais valioso do que ser um participante menor dentro de qualquer uma delas.
7. E o Brasil tem algo que a China precisa
Este é o outro lado da relação. A China tem capacidade manufatureira, tecnologia, infraestrutura, liquidez financeira, enorme poupança doméstica, e infraestrutura de pagamentos cada vez mais sofisticada. O Brasil tem alimentos, energia, minerais, terras, biodiversidade, tecnologia agrícola, acesso ao Atlântico, um grande mercado doméstico.
Portanto, a relação não é simplesmente: China exporta manufaturas para o Brasil. Ela está se tornando: China fornece capital industrial/tecnológico enquanto o Brasil fornece capacidade estratégica de recursos naturais. Isso cria a possibilidade de um circuito financeiro China–Brasil.
8. Mas há uma possibilidade ainda mais interessante: o Brasil como “neutralizador”
O Brasil não deveria buscar a internacionalização do RMB para a China. Deveria buscar diversificação cambial para o Brasil. Essa é uma diferença sutil, mas importante.
O Brasil poderia apoiar: liquidação em RMB para o comércio Brasil–China; liquidação em BRL onde comercialmente viável; liquidação em dólar onde eficiente; liquidação em euro onde apropriado; ouro como ativo de reserva não soberano; mecanismos multilaterais de compensação; infraestrutura de pagamentos dos BRICS; e potencialmente infraestrutura de liquidação via CBDC/tokenização.
Isso parece muito mais próximo do interesse estratégico real do Brasil. De fato, autoridades brasileiras nos BRICS enfatizam que o objetivo não é uma moeda comum dos BRICS, mas reduzir custos de transação e aumentar o uso de moedas locais onde economicamente vantajoso.
9. Isso produz uma interpretação interessante do desequilíbrio global
Podemos reinterpretar o problema convencional da China. E o Brasil se situa em algum ponto entre os dois. Isso significa que o Brasil não é apenas afetado pelo superávit da China. O Brasil pode se tornar um dos mecanismos de transmissão por meio dos quais o superávit chinês é transformado em influência financeira internacional.
Isso é uma afirmação muito mais estratégica.
10. E é aqui que nossa estrutura TEI pode acrescentar algo original
A luz da TEI, poderíamos formular isso como uma interpretação da internacionalização monetária pela Economia Informacional.
A economia monetária tradicional enfatiza:
moeda → dinheiro → taxa de câmbio → balanço comercial.
Uma perspectiva TEI poderia enfatizar:
moeda → rede de informação/pagamento → capacidade de coordenação → poder financeiro.
Nessa interpretação, CIPS, pagamentos digitais, bancos de compensação, CBDCs, ativos tokenizados e liquidação transfronteiriça não são apenas conveniências tecnológicas.
São infraestruturas de informação para coordenação monetária.
Portanto, a variável relevante não é simplesmente:
taxa de câmbio, mas capacidade de coordenação financeira via redes de informação.
Isso se encaixa notavelmente bem com nosso conceito mais amplo de Poder Informacional.
Conclusão
Poderíamos descrever a posição estratégica do Brasil da seguinte forma:
O yuan é inicialmente uma manifestação do desequilíbrio global da China, mas sua internacionalização está transformando esse desequilíbrio em poder financeiro e informacional. O Brasil é incomumente importante porque é simultaneamente um dos principais beneficiários da demanda chinesa por commodities, um dos grandes contrapontos do superávit comercial chinês e um membro da rede institucional por meio da qual a China tenta internacionalizar o RMB.
O objetivo estratégico brasileiro não deve ser “desdolarização” no sentido simplista.
Deveria ser:
Manter acesso ao sistema do dólar enquanto desenvolve capacidade para operar eficientemente no sistema RMB/BRICS e fortalecer o real como moeda de liquidação regional.
E a versão realmente ambiciosa seria:
O Brasil como nó autônomo e intermediador, e não como subordinado de Washington ou Pequim.
É aí que a questão do yuan como mais do que um sintoma de desequilíbrios globais se torna diretamente relevante para a posição estratégica de longo prazo do Brasil.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre moedas internacionais no Brasil de hoje, não hesite em nos contatar!
