Na semana que passou iniciamos uma série sobre mercados de capitais numa perspectiva comparada. A discussão se iniciou a partir da leitura do documento intitulado “Collateral Infrastructure for Tokenized Capital Markets” (Infraestrutura de Garantias para Mercados de Capitais Tokenizados), produzido pelo DTCC - Depository Trust & Clearing Corporation - dos EUA; no entanto, para uma exame mais aprofundado, vimos a necessidade de uma avaliação prévia da estrutura e da dinâmica do mercado de capitais no Brasil, bem como de uma comparação com mercados de capitais em regiões do globo.
Sendo assim, analisamos inicialmente quatro aspectos básicos do mercado de capitais brasileiro, e deixamos para tratar os quatro restantes nesta newsletter, a saber: 5) A Renda Fixa é mais Forte do que o Mercado de Ações; 6) O Brasil está se movendo em direção a um Sistema Informacional Financeiro; 7) O Próximo Estágio é Colateralização e a Tokenização; 8) A Fraqueza Central Estrutural: Alocação de Capital Produtivo.
Comecemos pelo aspecto básico 5) A Renda Fixa é mais Forte do que o Mercado de Ações. O mercado de dívida corporativa no Brasil se expandiu substantivamente através de: i) debêntures; títulos do agronegócio; títulos de infraestrutura; estruturas CRI/CRA (1); FIDCs (2); e, veículos de securitização. Este é um dos fortes segmentos das finanças brasileiras hoje em dia.
Mesmo assim, este mercado permanece: i) altamente concentrado; dependente de investidores institucionais; e, iii) ainda operacionalmente fragmentado. Isto é precisamente onde a tokenized collateral infrastructure (mencionada no documento acima citado) pode se tornar transformadora. Justamente porque o Brasil já detém: i) grandes cestas de ativos colateralizáveis; ii) registros avançados; e, iii) sistemas de compensações digitais, o país está bem-posicionado para se tornar um líder em mercados de renda fixa tokenizada e mercados de colaterais.
No que diz respeito ao próximo aspecto básico, 6) O Brasil está se movendo em direção a um Sistema Informacional Financeiro, o Brasil está crescentemente se tornando um sistema financeiro intensivo em informação (bem aderentes aos postulados de nossa Teoria da Economia Informacional – TEI). A transformação chave é que dados, interoperabilidade, contratos programáveis, APIS, tokenized records, e compensações em tempo real, estão se tornando mais importantes do que as fronteiras institucionais tradicionais.
O Pix demonstrou isso dramaticamente: o fluxo de informação se tornou fluxo de liquidez. O Drex pode fazer o mesmo para os mercados de capitais. O futuro do sistema financeiro brasileiro pode, portanto, tornar-se menos centrado em torno de balanços patrimoniais estáticos, e mais em torno de orquestração dinâmica de liquidez. Esta é uma transformação profunda.
Em relação ao sétimo aspecto básico, 7) O Próximo Estágio é Colateralização e a Tokenização, o Brasil está se aproximando de uma transição estrutural de “digitalização financeira” para “mercados de capitais programáveis”. A próxima fase é provável de incluir: i) títulos de governo tokenizados; ii) mercado repo programável; iii) sistemas de colaterais interoperáveis; iv) recebíveis tokenizados; v) margining (3) automatizado; e, vi) mobilidade de capital em tempo real.
O Brasil está preparado, de forma não usual, para esta transição porque: i) nosso Banco Central é tecnologicamente ambicioso; ii) o setor bancário é digitalmente maduro; e, iii) a infraestrutura financeira já está centralizada e integrada. Isto dá ao Brasil uma vantagem sobre países com infraestruturas fragmentadas.
O oitavo e último aspecto básico, 8) A Fraqueza Central Estrutural: Alocação de Capital Produtivo. A maior fraqueza dos mercados de capitais brasileiros não é tecnologia: é insuficiente transformação produtiva das poupanças em inovação e crescimento da produtividade. O Brasil é excelente em gestão de liquidez, sofisticação monetária, financiamento de curto prazo, e engenharia financeira. Mas ainda luta em escalagem tecnológica, profundidade do capital de risco, do financiamento industrial, e do investimento produtivo de longa duração. Ou seja, o mercado de capital é operacionalmente eficiente, mas não é ainda completamente de desenvolvimento.
Como avaliação final, o Brasil pode se tornar uma das primeiras economias onde a atividade do banco central, os pagamentos digitais, a tokenização, a moeda programável, a mobilidade dos colaterais, convirjam para uma arquitetura financeira unificada. Se isto ocorrer, o país pode evoluir de um sistema financeiro centrado em bancos em direção a um sistema de mercado de capitais informacional programável.
E nesta transformação, uma infraestrutura de colaterais para ativos tokenizados pode se tornar tão importante quanto a B3, a SELIC, ou mesmo o Pix, porque ela pode redefinir liquidez, colaterais, compensações e alocação de capital em tempo real.
A próxima newsletter nesta série estava programada para ser uma avaliação do mercado de capitais dos EUA. No entanto, na newsletter passada afirmamos que a liquidez no Brasil é segmentada. Como ao longo de nossas newsletters estamos dando uma atenção especial ao tema da liquidez, na próxima newsletter vamos trazer uma discussão sobre o que estamos tratando por segmentação da liquidez no Brasil. Na sequência, avançamos na análise do mercado de capitais estadunidense, seguido pelo mercados chineses e asiáticos, e, finalmente, o europeu.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre mercados de capitais numa perspectiva comparada, não hesite em nos contatar!
- CRI (Certificado de Recebíveis Imobiliários) e CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio) são títulos de renda fixa emitidos por securitizadoras para financiar, respectivamente, o setor imobiliário e o agronegócio.
- Os FIDCs (Fundos de Investimento em Direitos Creditórios) são veículos de renda fixa estruturada que destinam pelo menos 50% do seu patrimônio na aquisição de créditos a receber de empresas, como duplicatas, aluguéis e cartão de crédito.
- Margining refere-se ao processo de medir, calcular e administrar a garantia (colateral) exigida para cobrir o risco de crédito em posições financeiras abertas.
