Não é mais segredo para ninguém que o mundo das finanças está ficando cada vez mais complexo, à medida que mais se conecta. E se no âmbito acadêmico aprendemos que o setor financeiro existe para levantar fundos, hoje cada vez mais concordamos com a tese, do economista Michael Howell, de que ele existe para refinanciar dívidas.
Com as economias crescentemente endividadas (tanto no mundo desenvolvido como no mundo em desenvolvimento), a pergunta que não quer calar é: “quem financia quem” na atual complexa arquitetura do sistema financeiro global? Nesta linha de raciocínio, a próxima pergunta a ser feita é: e quem financia a maior economia do planeta?
O artigo “The United States and Its Creditors: Assessing Foreign Demand for U.S. Assets” (Os Estados Unidos e Seus Credores: Avaliando a Demanda Estrangeira por Ativos dos EUA), de Anusha Chari e Gian Maria Milesi-Ferretti, publicado pelo Brookings em agosto de 2026, examina quem financia os Estados Unidos e se esse financiamento está se tornando mais vulnerável.
O principal argumento do artigo é que a posição externa dos EUA mudou significativamente desde a Crise Financeira Global - CFG:
- Os EUA são agora um grande devedor líquido perante o exterior: sua posição líquida de investimento internacional ultrapassava –70% do PIB no final de 2025. Entretanto, grande parte dessa deterioração decorre da valorização das ações americanas em poder de estrangeiros, e não simplesmente de um excesso de endividamento.
- A vulnerabilidade mais importante está na dívida externa, especialmente em títulos e Treasuries (títulos do Tesouro dos EUA). Os persistentes déficits em conta corrente dos EUA têm sido cada vez mais financiados por instrumentos de dívida, enquanto taxas reais de juros mais elevadas aumentam o custo desse financiamento.
- A composição dos credores dos EUA está mudando. Investidores oficiais estrangeiros — particularmente bancos centrais — tornaram-se relativamente menos importantes, enquanto investidores privados estrangeiros ganharam importância, inclusive aqueles que operam por meio de centros financeiros como as Ilhas Cayman.
- A redução da demanda oficial por Treasuries não significa necessariamente uma perda abrupta de confiança no dólar. Ela é explicada em grande medida pelo menor ritmo de acumulação de reservas, pelo aumento das posições do FED em Treasuries e pela valorização anterior do dólar, que estimulou bancos centrais a diversificar suas carteiras cambiais.
- A fragmentação geopolítica importa: maior tensão geoeconômica está associada a uma menor demanda oficial estrangeira por Treasuries. Investidores privados, contudo, continuam comprando Treasuries em episódios globais de risk-off, devido à sua função de ativo seguro (safe haven).
- A China está diversificando seus ativos para longe dos EUA, mas isso não explica a maior parte da posição externa americana. Economias avançadas da Europa e da Ásia representam exposições muito significativas aos ativos americanos, especialmente ações.
A mensagem central do artigo
É possível apresentar a contribuição do artigo da seguinte forma:
Os EUA não enfrentam atualmente um problema simples de “estrangeiros abandonando os Treasuries”; enfrentam, sobretudo, uma transição de um financiamento externo baseado mais em investidores oficiais para um financiamento baseado mais em investidores privados, justamente quando sua dívida externa e suas obrigações fiscais estão aumentando.
Essa distinção é importante. A demanda privada é mais sensível às condições de mercado e potencialmente mais volátil do que a demanda de bancos centrais por reservas. Assim, a resiliência do modelo de financiamento americano depende cada vez mais da capacidade dos Treasuries de preservar seu status de ativo seguro, apesar do crescimento da dívida fiscal e da fragmentação geopolítica.
Por que isso é particularmente interessante para a questão da liquidez global
O artigo estabelece uma ponte interessante entre desequilíbrios globais, liquidez em dólares, mercado de Treasuries e fragmentação geopolítica.
Ele sugere que a narrativa tradicional:
excedente de poupança da China/Ásia → compra de Treasuries pelos bancos centrais → financiamento dos EUA
está se tornando menos adequada.
Um mecanismo mais atual seria:
déficits fiscais e em conta corrente dos EUA → emissão de Treasuries → demanda global privada por ativos → intermediários financeiros → liquidez do mercado de Treasuries
Ou seja, o centro do problema passa da acumulação oficial de reservas para a capacidade do sistema financeiro global privado de absorver e manter a crescente oferta de ativos americanos.
Isso pode ser uma mudança muito importante na arquitetura do sistema monetário internacional.
Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre quem financia quem no atual sistema financeiro global, não hesite em nos contatar!
