Na semana que passou iniciamos uma discussão sobre a Trumponomics, a economia do governo Trump. Começamos apresentando algumas das personalidades que estão “fazendo da cabeça” do Presidente Trump, e apontamos para um documento intitulado “A User's Guide to Restructuring the Global Trading System” (Um Guia ao Usuário para Reestruturar o Sistema de Comércio Global), cujo autor é o economista Stephen Miran, atual Presidente do Council of Economic Advisers, agência diretamente ligada à Presidência dos EUA, encarregada de oferecer aconselhamento econômico a esta presidência.

Este documento tem causado certa controvérsia em função do seu diagnóstico e proposições, uma vez que examina ferramentas para reformatar o comércio internacional a partir da reeleição do Donald Trump, e tem sido considerado como a base teórica das políticas econômicas perseguidas pelo governo Trump. O trabalho analisa estratégias de tarifas e de moeda no contexto da valorização do dólar, apresentando potenciais consequências de mercado. 

Em essência, o documento identifica a sobrevalorização do dólar americano como a questão primária causando déficits comerciais persistentes e enfraquecimento do setor industrial dos EUA. Segundo seu autor, um dólar forte torna as exportações americanas mais caras e menos competitivas internacionalmente, enquanto os consumidores estadunidenses se beneficiam de importações mais baratas. Logo, ele propõe várias estratégias para endereçar tais questões, incluindo o uso de tarifas para neutralizar a sobrevalorização do dólar. Ele argumenta que tarifas podem ser implementadas sem causar inflação se o dólar apreciar pelo mesmo montante das tarifas, o que compensaria o aumento no preço para os consumidores.

O trabalho também sugere a criação de uma estrutura semelhante ao “Plaza Accord” (1) onde os EUA iriam negociar com seus parceiros mais próximos para implementar uma série de medidas. Essas medidas incluiriam manter o dólar barato para dar suporte às indústrias americanas, comprando títulos do Tesouro dos EUA para manter seu status como moeda de reserva internacional, relaxando tarifas em parceiros de comércio, e provendo garantias de segurança no formato da OTAN e compromissos regionais. A análise do autor está baseada no conceito do “Dilema de Triffin” (2), o qual coloca que um país com moeda de reserva, tal como os EUA, enfrenta um desafio em manter a força de sua moeda enquanto acumula insustentáveis níveis de dívida.

Este documento não emergiu do acaso. Há algum tempo existe um descontentamento com o desempenho da economia estadunidense, o que tem levado a certos depoimentos de que os déficits comerciais dos EUA são impostos “from abroad” (pelo exterior, ou pelos estrangeiros), o que tem guiado as narrativas de “vitimização” dos EUA (o slogan da campanha de Donaldo Trump de alguma forma revela esse descontentamento: “Make America Great Again- MAGA”, indicando que a América já não é tão grande quanto foi no passado!

No entanto, a análise do documento em apreço não é simples, porque ela deve endereçar várias questões complexas e entrelaçadas, tais como o papel dos déficits comerciais, os déficits fiscais, a desindustrialização da economia estadunidense, o papel do dólar no mercado doméstico e no mercado internacional (o eurodólar, que examinamos aqui nas newsletters de 24-07-2022, e 31-07-2022), e o chamado “China Shock” (Choque da China), o novo papel da China na economia mundial.

Sendo assim, na próxima newsletter vamos examinar o documento aqui citado a partir de três mitos que estão sendo tratados na literatura: a) Os déficits comerciais dos EUA são devidos às políticas comerciais, a si próprio e àqueles parceiros comerciais como a China – tarifas e pressões táticas podem retificar isso; b) O papel do dólar como moeda de reserva requer que os EUA incorram em déficits na conta corrente para satisfazer a crescente demanda mundial por reservas estrangeiras; e, c) Os déficits nos EUA se originam primariamente em uma “global saving glut” (excesso global de poupança).

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre a Trumponomics, não hesite em nos contatar!

https://en.wikipedia.org/wiki/Plaza_Accord

https://en.wikipedia.org/wiki/Triffin_dilemma 

(*) Esta newsletter contou, em parte, com a ajuda do LEO, assistente digital do browser Brave.