Esta newsletter dá seguimento a uma série que teve sua primeira parte publicada em 15/06/2026, quando iniciamos uma discussão que nos levou ao tratamento da estrutura e da dinâmica dos mercados de capitais do Brasil, dos EUA, da China e da Ásia. Começamos com o Brasil (em duas newsletters), seguido de uma abordagem sobre a segmentação da liquidez no Brasil, passamos pelo mercado de capitais estadunidense, e hoje tocamos nos mercados chinês e asiático.

Os mercados de capitais chinês e asiático são estruturalmente muito diferentes de ambos mercados dos EUA e do Brasil. Se fôssemos sumarizá-los brevemente, teríamos:

  • O mercado dos EUA é uma máquina altamente integrada de colaterais globais e de inovação;
  • O mercado brasileiro é um sistema sofisticado, mas segmentado de liquidez;
  • O mercado chinês é um sistema de desenvolvimento financeiro coordenado pelo Estado;
  • Os mercados asiáticos são fragmentados, mas estão rapidamente digitalizando mercados de crescimento regional.

As mais importantes distinções são estas:

  • O mercado dos EUA é organizado em torno da otimização de capital privado;
  • O mercado chinês é organizado em torno de coordenação estratégica do estado;
  • E os mercados asiáticos são organizados em torno de integração desenvolvimentista heterogênea.

Podemos notar 07 (sete) características do mercado chinês:

1. A China construiu o Maior Sistema de Mercado de Capitais do Mundo Dirigido pelo Estado

Os mercados de capitais da China são enormes: o segundo maior em ações. Um dos maiores do mundo em mercados de títulos, grandes ativos de bancos, grandes fundos estatais, grandes ecossistemas de fintechs, e crescente e sofisticada infraestrutura digital.

Mas, ao contrário dos EUA, as finanças chinesas não são primariamente organizadas em torno de eficiência na alocação de mercado. Elas são organizadas em torno de objetivos estratégicos nacionais de desenvolvimento. E isto cria um híbrido sistema financeiro: parte capitalista, parte administrativo.

2. O Centro do Sistema Financeiro da China são os Bancos, e não os Mercados de Capitais

Apesar das enormes bolsas de valores em Shangai, Shenzen e Hong Kong, a China permanece fundamentalmente centrada em bancos. Bancos estatais dominam, e, ao contrário dos EUA, mercados repo são menos globalmente centrados, gestão institucional de ativos é menos dominante, e o capital privado tem menos autonomia. O Estado age como o alocador de liquidez em última instância.

3. A China Usa Finanças como Política Industrial

Na China as finanças frequentemente alocam capital de acordo com prioridades estratégicas. Elas possibilitam: escalagem industrial, construção de infraestrutura, manufatura exportadora, dominância em EV (Electric Vehicles), expansão de energia renovável, e rápido upgrading tecnológico.

4. Mas a China Sofre de Má Alocação Estrutural de Capital

As mesmas forças criam também suas fraquezas. Como a alocação de crédito é politicamente influenciada, a China desenvolveu excessiva alavancagem, superinvestimento no mercado imobiliário, dependência de dívida governamental local, e supercapacidade em certos setores.

5. A China Está Construindo uma Arquitetura Financeira Digital Estatal

A China pode se tornar um líder mundial em finanças programáveis integradas pelo Estado. Ela já tem: sistemas de pagamentos digitalmente avançados, pilotos de e-CNY (moeda do banco central), plataforma de finanças, ecossistemas digitais integrados, e capacidades sofisticadas de vigilância.

6. A Grande Força Financeira da China

Sua grande força é sua capacidade de coordenação estratégica. Ela pode rapidamente dirigir liquidez, mobilizar infraestrutura financeira, subsidiar indústrias, e coordenar escalagem tecnológica a escalas enormes.

7. A Grande Fraqueza Financeira da China

Sua grande fraqueza é sua declinante eficiência em alocação de crédito. O sistema crescentemente depende de expansão de dívida, de veículos financeiros governamentais locais, e de garantias implícitas do Estado. Isto cria fragilidades ocultas, declinante produtividade do capital e crescente alavancagem sistêmica.

Já o mercado asiático tem como característica central um Dinamismo Fragmentado. Os países aqui referidos são: Singapura, Indonésia, Malásia, Tailândia, Vietnam, Filipinas e outros. Suas economias variam enormemente em sofisticação, qualidade institucional, profundidade financeira, e maturidade regulatória. No entanto, coletivamente elas representam uma das regiões do mundo de mais rápido crescimento financeiro.

Singapura é o centro financeiro. É o centro de comando financeiro do que se conhece como ASEAN countries. Funciona como um hub de riqueza, um centro de FX (Foreign Exchange), plataforma de bancos privados, hub de gestão de ativos, e, crescentemente: um laboratório de tokenização e finanças digitais.

Indonésia e Vietnam representam a Fronteira de Crescimento. São importantes porque combinam crescimento demográfico, expansão industrial, emergente classe média, e adoção tecnológica. Suas economias estão transicionando de sistemas dominados por bancos em direção a sistemas baseados em economistas mistas.

De forma geral, a estrutura financeira dos países asiáticos é menos alavancada do que a dos EUA, sua mais importante dinâmica é o digital leapfrogging (salto digital). No entanto, sua maior fraqueza é a fragmentação. Suas economias carecem de mercados de capitais unificados, integração regional de liquidez mais profunda, e de sistemas comuns de colaterais.

A Tabela 1 a seguir dá uma ideia comparativa dos sistemas examinados até o momento nesta série. Como avaliação final, pode-se afirmar que o sistema financeiro global está crescentemente evoluindo para um de modelos competitivos de finanças programáveis.

Na próxima newsletter, e última da série, trataremos, finalmente, dos mercados de capitais da Europa.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre mercados de capitais numa perspectiva comparada, não hesite em nos contatar!

Tabela 1: Sumário Comparativo

Dimensão

USA

China

ASEAN

Brasil

Estrutura Central

Guiada por

Mercado

Coordenada

pelo Estado

Desenvolvimentista

Fragmentado

Híbrido centrado em Bancos

Profundidade da Liquidez

Massiva

Grande

Moderada

Moderada

Inovação financeira

Excepcional

Estratégica/guiada

pelo Estado

Emergente

Limitada

Sofisticação de Repo/colateral

Extremamente

elevada

Moderada

Limitada

Moderada

Financeirização

Muito alta

Moderada

Baixa

Moderada

Papel do Estado

Indireto

Dominante

Misto

Significante

Finanças Digitais

Avançadas

Integradas pelo

Estado

Leapfrogging

Avançadas

Potential de

Tokenização

Otimização de Eficiência

Finanças programáveis pelo Estado

Ferramenta de Interoperabilidade tool

Modernização Estrutural