Chegamos ao final desta série que teve sua primeira parte publicada em , quando iniciamos uma discussão que nos levou ao tratamento da estrutura e da dinâmica dos mercados de capitais do Brasil, dos EUA, da China e da Ásia. Começamos com o Brasil (em duas newsletters), seguido de uma abordagem sobre a segmentação da liquidez no Brasil, passamos pelo mercado de capitais estadunidense, e pelos mercados chinês e asiático, e hoje sintetizamos toda a discussão com o mercado Europeu.

O mercado de capitais europeu é um dos sistemas mais sofisticados do mundo institucionalmente, mas também é um dos mais restritos estruturalmente. Em uma frase, a Europa tem instituições financeiras de classe mundial, mas ainda não tem um mercado de capitais completamente unificado.

Esta é a contradição central. Ao contrário dos EUA, a Europa tem integração monetária sem uma integração financeira; uma moeda comum sem um safe asset (ativo seguro) comum, e cestas profundas de poupanças sem igualmente profundo dinamismo no mercado de capitais (1). O resultado é: um sistema financeiramente sofisticado, porém estrategicamente fragmentado.

Podemos tratar aqui, de forma breve, algumas características do sistema europeu. A primeira delas é a de Integração Fragmentada. A Europa não é nem um mercado nacional único, como os EUA, nem um sistema completamente dirigido pelo Estado, como é a China. Ao invés, é uma arquitetura financeira federativa. Isto significa: múltiplos mercados de dívida soberana, múltiplos sistemas bancários, diferentes tradições legais, regras de insolvência fragmentadas, sistemas de pensão heterogêneos, e desigual profundidade de seu mercado de capitais.

Outra caraterística é que a Europa é ainda Primariamente Centrada em Bancos. Quando comparada aos EUA, a Europa permanece muito mais intermediada por bancos. Uma terceira característica é a de que a Europa tem Enormes Poupanças, Mas Mobilização de Capitais Fraca. Ela possui grandes poupanças de pensões, grandes cestas de seguros, fortes poupanças familiares, e bancos globalmente importantes. No entanto, este capital não circula dinamicamente em inovação produtiva. Logo, tem riqueza abundante, mas um dinamismo fraco do seu mercado de capitais.

Uma quarta característica é a de que o ECB – European Central Bank Criou Unidade Monetária – Mas Não Uma Unidade Financeira. O Euro unificou a política monetária, os pagamentos, e os arcabouços das taxas de juros. Porém, a Europa carece de um Tesouro unificado, uma autoridade fiscal comum, e um mercado de títulos soberanos verdadeiramente integrados.

Uma quinta caraterística é que a Europa é Extremamente Avançada em regulação Financeira. Ela é líder em regulação prudencial, em arcabouços ESG (Environment-Social-Governance), em governança de dados, em regulação de finanças digitais e em supervisão institucional. Desta forma, a Europa crescentemente vê as finanças não meramente como um mercado, mas sim uma infraestrutura digital regulada.

A sexta característica é a de que a Europa Pode Se Tornar o Líder Global em Tokenização Regulada. E aqui é onde o documento do DTCC - Depository Trust & Clearing Corporation - dos EUA, citado na Parte 1 desta série, torna-se altamente relevante. A Europa está excepcionalmente bem-posicionada para as finanças tokenizadas institucionais. Sua estratégia parece ser a de se posicionar em finanças programadas fortemente reguladas: não ao cripto-anarquismo e nem puramente experimentação liderada pelo mercado.

Como característica final, tem-se que o Emergente Modelo da Europa. A Europa pode, em última instância, tornar-se o Bloco Financeiro Digital Regulado Destacado do Mundo. Suas vantagens comparativas podem não ser: liquidez máxima, alavancagem máxima. Mas sim: infraestrutura confiável, interoperabilidade regulada, e estabilidade institucional. Este é um modelo distinto de ambos os sistemas estadunidense e sistema chinês. A Tabela 1 a seguir sumariza os mercados de capitais examinados nesta série.

Se sua empresa, organização ou instituição deseja saber mais sobre mercados de capitais numa perspectiva comparada, não hesite em nos contatar!

  1.  Podemos ainda afirmar que a Europa tem uma integração financeira, porém não tem uma integração fiscal!
Tabela 1: Sumário Comparativo
DimensãoUSAChinaEuropaBrasil
Estrutura Central Guiada por Mercado Coordenada pelo Estado União fragmentada, regulada, Fragmentado Híbrido centrado em Bancos
Profundidade do mercado capitais Massiva Grande Grande, mas fragmentada Moderada
Inovação financeira Excepcional Estratégica/guiada pelo Estado Moderada Limitada
Ativo Seguro Tesouro unificado Sistema de bancos estatais Soberanos fragmentados Dívida pública
Financeirização Muito alta Moderada Moderada Moderada
Integração do mercado repo Extremamente alta Moderada Parcial Moderado
Sofisticação regulatória Alta Estratégica Extremamente alta Alta
Potential deTokenização Otimização de colaterais Programabilidade estatal Interoperabilidade regulada Modernização Estrutural
Dominância bancária Moderada Muito alta Alta Alta